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Natação Artística: “A base de tudo é a nossa capacidade de trabalhar, de nos organizarmos e de nos entregarmos ao que fazemos”
- By Fluvial
Prestes a iniciar a primeira competição da época, Sílvia Pinto em entrevista ao Fluvial
Sílvia, és há vários anos diretora técnica e treinadora principal da secção de Natação Artística do Fluvial. O que te motiva a continuar neste projeto?
Há muitas coisas que me fazem questionar se devo continuar.
Mas há algo que prevalece sempre: os meus atletas. A sua entrega, dedicação e confiança motivam-me diariamente. Não sei se é coincidência, mas sempre tive a sorte de trabalhar com atletas de postura e compromisso excecionais, independentemente da idade. Sinto que, de alguma forma, contribui para isso e essa é a marca que deixo na sociedade: formar pessoas extraordinárias.
Quais consideras serem as maiores conquistas da secção nos últimos anos, para além dos títulos, em termos de evolução dos atletas e da estrutura?
A nossa maior conquista é o caminho que percorremos juntos. Quando iniciei este projeto deram-nos apenas 12,5 metros de espaço para partilhar com a Deepwater e ninguém acreditava na modalidade. Mas transformámos cada metro em algo nosso, no clube e no panorama nacional alcançámos conquistas impensáveis. Mais uma vez tive atletas extraordinários ao meu lado, a sonhar e a acreditar comigo que era possível. Hoje, quem vê os nossos resultados não imagina, ou já se esqueceu, de onde partimos há apenas 11 anos. Este percurso não se constrói apenas com conhecimento técnico, isso aprende-se em qualquer lugar. O que faz realmente a diferença são as capacidades humanas. É isso que define esta equipa: caráter, resiliência e vontade de conquistar
A época passada foi absolutamente notável, com vitórias em todos os troféus coletivos em disputa, incluindo a Taça de Portugal. O que esteve na base deste sucesso?
A base de tudo é a nossa capacidade de trabalhar, de nos organizarmos e de nos entregarmos ao que fazemos. Estamos todos alinhados, a pensar e a agir na mesma direção. A maior dificuldade é manter este mindset numa equipa que cresce cada vez mais. Mas, quando entramos na nossa bolha, nada mais importa.
Como é que os atletas reagiram a esses resultados? Sentiram mais motivação ou também uma maior responsabilidade para esta nova época?
Mais uma vez, tudo se resume ao mindset. Estamos sempre focados no próximo objetivo e no que precisamos de fazer para o alcançar. No último ano, tentei muito que os atletas aprendessem a desfrutar mais das suas conquistas, em vez de pensarem imediatamente no que vem a seguir. Mas acho que, no fundo, são como eu: aquilo que realmente nos dá prazer é o processo que nos leva à vitória e não a vitória em si.
Há algum momento da época passada que te tenha marcado de forma especial?
Sempre que vejo os meus atletas a conquistarem os meus sonhos, vivo momentos especiais. Mas ver a bandeira de Portugal subir ao pódio em terceiro lugar na Taça COMEN foi único. Foi a primeira vez que isso aconteceu.
Outro momento marcante foi quando a Anna e a Inês acordaram muito doentes, depois de terem alcançado um impressionante 9º lugar no seu primeiro Campeonato da Europa [Absoluto]. Fiquei profundamente impressionada com a determinação delas em querer competir, mesmo depois do médico ter recomendado que não o fizessem. Hoje, com tudo o que sei, não as teria deixado competir. Elas não tinham de provar nada a ninguém. São jovens, talentosas e têm um enorme caminho de sucesso pela frente.
Quais são as principais metas e objetivos para esta nova época?
Queremos consolidar ainda mais a nossa força. O sistema de pontuação mudou esta época, com vários aspetos com os quais não concordamos. Mas, ao longo destes 11 anos, aprendi que quanto mais rápido aceitamos que as regras são essas, mais tempo ganhamos para nos adaptarmos e definirmos a melhor estratégia.
O nosso objetivo é participar cada vez mais em competições internacionais — e não apenas ao nível das seleções. Os atletas têm uma postura de trabalho exemplar nos treinos e precisam de competir mais para adquirirem experiência competitiva. Essa experiência será determinante nas competições de maior importância, especialmente quando representam a seleção.
Que aspetos estão a trabalhar com mais foco neste início de época?
No início de época dedicámos as primeiras semanas a trabalhar a união da equipa. Só depois passamos a focar intensamente na preparação do corpo – em força e técnica – e também da mente.
Como vês a evolução da modalidade em Portugal e o papel do Fluvial no panorama nacional?
Temos plena consciência do nosso trabalho e do nosso valor. Com muito pouco, conseguimos fazer acontecer e construir resultados sólidos. Mas sinto que falta à Federação um estudo sério sobre a realidade da natação artística em Portugal, um conhecimento real do trabalho que se faz e das condições muito diferentes que existem entre clubes.
Acredito que deveria existir uma aposta forte na formação de treinadores com uma base intermédia de natação artística, para que fosse possível aumentar o número de praticantes. Já existiu um modelo multidisciplinar implementado pela direção anterior, que poderia ter evoluído nesse sentido, mas acabou por desaparecer.
O Fluvial, para além dos resultados, que nem sempre são devidamente valorizados, também por falha da Federação, tem um percurso exemplar na aplicação desse modelo multidisciplinar que eu ajudei a desenvolver no clube e na própria Federação. Ao longo destes 11 anos formei sete treinadoras de natação artística que hoje fazem ou fizeram parte do clube.
O Fluvial abastece todas as seleções nacionais, desde os escalões jovens até aos absolutos. E aquilo que sinto é simples: se este clube estivesse localizado em Lisboa, os apoios seriam completamente diferentes.
A modalidade precisa de um investimento sério na formação de treinadores, no incentivo à criação de novos clubes, mesmo que voltados apenas para a formação e na implementação de modelos multidisciplinares que possam contribuir para esse crescimento. Além disso, é fundamental desenvolver um modelo de identificação e desenvolvimento de talentos que seja adequado à nossa realidade. Em outras palavras, a natação artística necessita de um plano estruturado de desenvolvimento em dois níveis — formação e competição — algo que, até onde sei, ainda não existe.
A Natação Artística é uma modalidade de forte componente coletiva e o espírito de grupo é bem visível entre os atletas. Como se constrói este espírito dentro e fora de água?
Acima de tudo deve prevalecer sempre o bem-estar da equipa. Valorizamos e acompanhamos as necessidades individuais de cada atleta, mas sempre com o propósito de fortalecer o coletivo. Só uma
equipa equilibrada, unida e saudável consegue evoluir e alcançar resultados. Este trabalho é emocionalmente exigente, porque conheço profundamente cada atleta e sei exatamente quando alguém precisa de um apoio especial. No entanto, este cuidado mútuo vai sendo transmitido de geração em geração. Mesmo com o crescimento da equipa — o que torna mais difícil chegar a todos — procuramos criar momentos de reflexão e união entre todos os escalões sempre que possível.
Que valores procuras transmitir aos atletas?
O valor do trabalho, da resiliência, de acreditar no processo e de perceber que nada é impossível — que cada um de nós é capaz de conquistar o que quiser — está nas nossas mãos. Todos os dias podemos fazer a diferença. Os atletas sabem que dou tudo de mim e que estou ali para ajudar cada um a explorar todo o seu potencial.
Mas esta aprendizagem nunca acaba. Estamos sempre a evoluir uns com os outros. Eles confiam em mim e sabem que vou escolher sempre o que é mais correto e mais saudável para a equipa. Sabem que vou lutar por cada metro de espaço e por cada reconhecimento. E também sabem que estamos sempre lá uns para os outros. Porque nesta equipa ninguém larga a mão de ninguém.
O que mais te orgulha quando olhas para o caminho percorrido até hoje no Fluvial?
A equipa que construí e a minha resiliência são o que mais me orgulha. Sou mãe, sou professora de História e Geografia, e todos os dias preciso lembrar-me de que tudo o que conquistei no Fluvial e na modalidade a nível nacional é extraordinário — e é essa consciência que me dá motivação diária para continuar a dedicar-me a esta equipa.
Pelo caminho aprimorei também a minha formação: alcancei o Grau 3 de treinadora, concluí o mestrado em Treino na FADEUP com distinção, dou formação na área da natação artística e acompanho seleções nacionais.
A Anna, a Inês e o grupo de juniores e absolutos treinam cerca de 25 horas semanais sempre comigo. Para além dessas horas, ainda procuro acompanhar os restantes escalões, realizo a reunião semanal com as treinadoras, trato de toda a gestão administrativa da secção no tempo que me sobra e, ao mesmo tempo, tento ser mãe e esposa presente, custe o que custar.
Apesar da exigência consigo conciliar todas estas funções graças a uma gestão rigorosa do meu tempo e a um profundo compromisso com aquilo que acredito. Tenho plena noção de que o que faço não está ao alcance de qualquer pessoa. Por isso, orgulho-me sobretudo da minha força interior, porque o reconhecimento nem sempre chega — e ser treinadora em Portugal é das funções mais ingratas que se pode ter, e que só compensa pelos sonhos que ajudo os meus atletas a conquistar.
Que mensagem gostarias de deixar aos atletas e família fluvialista?
Aos meus atletas quero dizer-vos que são a minha fonte inesgotável de inspiração. A vontade que vejo em cada um de vocês de serem sempre melhores dá-me força todos os dias e é disso que me alimento.
À família fluvialista, deixo o desejo sincero de que valorizem o verdadeiro esforço de quem o faz. Esse esforço não acontece só no andar de cima do Fluvial; acontece todos os dias no cais da piscina e merece ser valorizado tão ou mais, não apenas com palavras, que nem sempre chegam, mas também com práticas reais.